A praça e o vírus. Uma imagem e algumas considerações

María José Rosado[1]
Católicas por el Derecho a Decidir- Brasil

 

Começo invocando uma imagem: o Papa, solitário, dando uma bênção, diante de uma imensa praça vazia. Muito se falou da figura do Papa. A mim, impressionou-me o vazio daquela imensa e emblemática praça.¬ro. E me pareceu um símbolo eloquente do que nos pode fazer algo infinitamente menor do aquele espaço. Ninguém o vê, a não ser com as lupas de um microscópio. E tão potente, no entanto, capaz de parar o mundo. Mas o mundo é muito grande e muito longe. Sabemos que o mundo parou porque também a nossa vida, de repente… parou, como que suspensa no ar. Estamos todas e todos perplex@s. A incerteza nos invade de forma atroz. E a vida parece esvaziar-se como a praça, até mesmo de sentido: Quem somos? O que será de nós? Sobreviveremos? O cotidiano que nos governa com um tempo e espaço bem definidos se esvai no ar. Nosso ritmo passa a ser on-line. Tudo passa pelas redes sociais, pelos provedores de internet… Nada mais sob nosso controle, como antigamente. Como antigamente?! (Deveria colocar aqui um emoji surpreso e pensativo, para estar de acordo com os novos tempos.) Como ontem, antes do vírus?! Mas parece tão distante no tempo! Porque tudo mudou. Já não nos abraçamos mais. Nossos encontros são virtuais. Até o sexo tem “guia para transar com segurança”. Nada mais tem a realidade da matéria que se toca, que cheira, corporificada, com gosto e sabor. Quem sabe, é para lembrar-nos essa nova realidade dos relacionamentos que o vírus nos tira logo de início, o sabor e os aromas. A vida é outra. Saberemos vivê-la? Muito se tem escrito sobre os efeitos futuros da pandemia. Como estará o mundo pós-pandemia. E as análises vão de uma perspectiva positiva – Um mundo trabalhado por valores feministas, como acredita a antropóloga brasileira, Débora Diniz – à possibilidade de que o capitalismo ultra liberal ganhe essa batalha contra um horizonte societário de solidariedade e justiça, na análise da jornalista Eliane Brum. Aguardemos…

Mas para além dessas considerações iniciais, pergunto-me pelas formas diversas em que o COVID atinge a sociedade. E a resposta não pode ser outra senão o reconhecimento da profunda desigualdade social que o vírus põe a nu. Escrevo protegida por meu status de mulher branca, emprego e salário assegurados, tendo me refugiado em local distante da fúria do vírus. Um privilégio. Não é esse um quadro do qual se possa dizer que represente o país. Ao contrário. Raça/etnia, classe e gênero moldam a pandemia, nada democrática. O lugar de grande parte das mulheres brasileiras é de um confinamento que as joga com maior força na violência do “lar doce lar”, com a amarga experiência de ter a casa como um espaço perigoso e violento. E mesmo quando não é assim, a divisão sexual do trabalho coloca sobre a população feminina, senão todo o peso, a maior parte do cuidado com “a casa” e a vida cotidiana, com seus inúmeros apelos. Sobre as mulheres recai, com mais força do que em tempos de normalidade, a responsabilidade do mundo privado, do “Fique em casa”, em que trabalho profissional e doméstico se acumulam: Escola em casa (homeschooling), entretenimento das crianças, limpeza, comida, trabalho em home office… E para grande número de mulheres, o “fique em casa” traz medo, muitas vezes terror, pelo acirramento da violência doméstica, alcançando índices de crescimento durante a pandemia que impressionam. Em todas as classes sociais, de todas cores. Mas ainda assim, violência moldada pela situação de pobreza que potencializa a violência pela exiguidade do espaço das casas em que “ficar em casa” significa ficar no barraco, na palafita onde até o ar é pouco para tanta gente. Moldada ainda pela cor da pele que é a cor da pobreza, em nosso país, como em tantos outros. Quando religiões preconizam o “doce aconchego do lar” como antídoto ao individualismo moderno, não pensam nessas mulheres e em sua realidade.

Se a pandemia nos traz de forma bruta e irrefutável o fosso abissal que separa pobres e ricos, negr@s e branc@s e também, mulheres e homens, desnuda, por outro lado, a força do biopoder e da biopolítica que, exercida sobre os corpos, expõe a realidade do projeto capitalista necrófilo. Desiguais são as condições em que são tratados os corpos. O mandato patriarcal capitalista faz distinguir corpos que se cuida e corpos que se deixa morrer. Que corpos importam ao capital? O que está em jogo é o controle, o dominio sobre a morte e, portanto, sobre a vida. Há vidas que importam e outras, descartáveis, como tão bem nos lembra Judith Butler.

De fato, a pandemia não é democrática. Não atinge todas e todos da mesma forma. São os corpos das populações marginalizadas de muitas formas aqueles sobre as quais recairão com maior peso os impactos da pandemia. Penso na imensa maioria daquelas e daqueles que constituem os grupos mais vulneráveis da sociedade, penso na imensa pobreza dos nossos países latino-americanos e caribenhos. Penso em travestis, transexuais, população cigana, indígena, negra, e nas mulheres desses grupos. Os níveis de abstração em que se constroem ideais de justiça social não nos permitem ver as pessoas na materialidade concreta de suas vidas, de seus corpos, na materialidade do lugar que ocupam na sociedade e impedem sua realização.

Volto, finalmente, à imagem da praça vazia. E recupero a imagem que abandonei de início: Um líder religioso reza, sob uma fina e triste chuva, pelo mundo em pandemia. Lança sua bênção sobre o espaço aberto que permite que ela alcance não apenas seu povo, mas todos os recantos da terra. A bênção não cura, mas consola. Em tempos de crise, de intenso sofrimento e desamparo, as religiões podem, sem promessas ilusórias de curas impossíveis, apresentar-se como o lugar em que se deposita a dor da perda que não se pode chorar, do luto que não é dado viver, da absoluta incerteza sobre o futuro. Essa a realidade comum a todas e todos, sem distinção. E quem sabe, nesse horizonte compartilhado de angústia possa brotar a difícil esperança um mundo realmente solidário e justo? Por que não?!

 

 

[1] Membro do Católicas pelo Direito de Decidir – Brasil